O vinho tem o superpoder de engarrafar o tempo. Para mim, ele guarda algo ainda mais profundo. Cada garrafa da Quinta da Lixa transporta as memórias da minha infância, os passos da minha família.
Desde pequenina que a minha resposta à pergunta "o que queres ser quando fores grande?" era muito clara: queria ser agricultora. As minhas maiores alegrias eram vividas na adega, no campo, e uma das memórias mais felizes que guardo no coração é a de passear de trator com o meu avô, a absorver o cheiro da terra e a aprender, sem saber, o amor à videira. Crescer aqui significou compreender que uma vinha não é apenas um negócio; é o reflexo da nossa identidade familiar.
Hoje, como Diretora de Qualidade e membro directo da Quinta da Lixa, olho para o mundo do vinho em constante transformação. As alterações climáticas desafiam a nossa resiliência, o mercado global exige rapidez e as novas tendências reinventam os hábitos de consumo. No centro de toda esta metamorfose, dou por mim com uma responsabilidade que me move todos os dias: como posso liderar a modernização das técnicas e a exigência sem desvirtuar a alma e a pureza daquilo que a minha família construiu?
Aprender com Quem Fundou
Ser filha, sobrinha e prima de quem ergueu a Quinta da Lixa ensinou-me que preservar a nossa identidade não é ficar parado no tempo. Cada decisão tomada é guiada pelo respeito profundo ao trabalho de uma vida inteira da minha família.
Honrar esse legado significa proteger a nossa essência através da excelência técnica.
Num mercado mundial competitivo, o meu papel na garantia de qualidade é o filtro que assegura que a tipicidade dos nossos Vinhos Verdes se mantém intacta. Procuramos a consistência absoluta, lote após lote, para que quem abra uma garrafa sinta a mesma verdade que eu sentia quando andava no trator com o meu avô.
O Pai que Me Ensinou a Ousar
Se há uma pessoa que molda a minha forma de ver o futuro todos os dias, essa pessoa é o meu pai. O seu espírito empreendedor é, para mim, uma das forças mais inspiradoras que conheço. Ele nunca aceitou que as coisas "não podem ser feitas" — pelo contrário, sempre acreditou que é precisamente quando o caminho parece impossível que vale a pena avançar.
Crescer a observá-lo ensinou-me que liderar com ambição não é incompatível com liderar com raízes. Que inovar não significa abandonar o que se é. O seu exemplo deu-me a coragem de fazer perguntas difíceis, de questionar o que pode ser melhorado, de não me conformar com o suficiente quando o excelente está ao alcance. É essa inquietude criativa — essa recusa em ficar parado — que carrego comigo cada vez que entro na adega ou caminho pelas vinhas.
Pioneiros no Enoturismo: O Monverde Wine Experience Hotel
Talvez o exemplo mais vívido desse espírito pioneiro seja o Monverde Wine Experience Hotel. Quando a ideia de criar um hotel vínico no coração da região dos Vinhos Verdes surgiu, não havia precedentes por aqui — era verdadeiramente um território inexplorado. E foi precisamente isso que o tornou tão emocionante.
O Monverde nasceu da convicção de que o Vinho Verde merecia ser vivido, não apenas bebido.
O Monverde Wine Experience Hotel tornou-se o primeiro hotel vínico da região dos Vinhos Verdes — um projeto de enoturismo com alojamento que convida os visitantes a mergulhar de forma completa neste universo: as vinhas ao amanhecer, as provas na adega, a paisagem do Minho a estender-se até onde a vista alcança. Uma experiência sensorial total, onde o vinho é o fio condutor de tudo.
Para mim, este projeto é muito mais do que um hotel. É a prova de que a nossa família não se limita a produzir vinho — acredita profundamente no território que habita e quer partilhá-lo com o mundo. Ver hóspedes de todo o mundo chegarem ao Monverde e saírem com uma ligação genuína ao Vinho Verde e ao Minho é uma das maiores recompensas que este trabalho me dá. E é também uma responsabilidade: cada garrafa que abrimos aqui é um embaixador da nossa terra.
Construir o Futuro com Raízes
Construir o futuro exige a coragem de inovar. Juntos, sinto o orgulho e o dever de projetar a Quinta da Lixa para as próximas décadas. Essa evolução faz-se hoje com passos firmes na sustentabilidade, no respeito pela biodiversidade e na adaptação dos nossos vinhos aos novos paladares globais, sem nunca perder a nossa raiz.
Quero continuar esta história de amor à terra. Olho para o futuro com a certeza de que a inovação só faz sentido se souber respeitar o nosso passado. Afinal, o futuro da Quinta da Lixa escreve-se com ciência, rigor e visão estratégica — mas o seu coração continuará a ser, sempre, a nossa família.